Home » Editorial

A vida – A dor e o sofrimento

27 Agosto 2011 Não Commentado

Antonio CasteleiroA dor e o sofrimento faz parte intrínseca da vida, assim como o fazem sentimentos e emoções mais positivos como a alegria e a felicidade.

Num mundo dual, onde as polaridades opostas definem toda a realidade, a tristeza e a alegria terão também de integrar o quotidiano das nossas vidas. Não podemos pretender que haja só dias de sol, porque a chuva também é necessária. A sabedoria a encontrar será, pois, a de acolhermos como inevitáveis estas oscilações naturais, se queremos acertar o passo com a vida, condição necessária para se ser feliz.

É verdade que o sofrimento e a dor parecem distantes do estado de felicidade a que aspiramos naturalmente e que constitui a razão de ser de todos os nossos comportamentos e atitudes. Parece, por isso, insensato que pretendamos acolher esses estados de espírito em pé de igualdade com aqueles que nos fazem felizes num determinado momento.

Acontece, no entanto, que a construção da felicidade é uma tarefa infinda, que exige empenhamento e habilidade para ir sendo paulatinamente delineada. Se a fuga àquilo que nos faz sofrer é um imperativo moral, porque nascemos para ser felizes e não para o contrário, é também necessário que tenhamos coragem de aceitar aquilo que não pode ser mudado, como condição para se estar em harmonia com a vida e com todas as suas contingências e leis.

Se a luz e as trevas existem também teremos de passar por dificuldades e provações, para enxergarmos a luz ao fundo do túnel. De nada vale querermos as coisas de outra forma, porque essa é a lei da vida que nos reserva a almejada felicidade, quando tivermos já transcorrido o caminho dos socalcos que se orientam ora para cima, ora para baixo.
Teremos, então, de ir aprendendo com aquilo que nos dói, para que o mal não se repita, na presunção de que os nossos sofrimentos, na sua origem, decorreram da violação das leis da vida. Em cada provação, deve ser feita interiormente a pergunta sobre a lição a aprender, de forma a que as acções futuras comportem maior acerto.

Nós somos vida e toda a actuação que lhe seja contrária, virar-se-á igualmente contra nós, originando angústias, doenças, solidão e mal no conjunto do mundo. Importa, então, irmos ao encontro da ordem e inteligência do universo, de que somos agentes e partes, para que a vida deixe de conter as oscilações inerentes ao plano de existência em que nos situamos. Para isso, é necessário dispormo-nos a um trabalho sobre nós próprios, de forma a descobrirmos as leis naturais que operam na imensidão do mundo, e assumirmos a condução do nosso viver quotidiano em consonância com essa harmonia absoluta. Até lá, não nos furtemos àquilo que temos de viver para acertarmos o passo, aceitando amorosamente e com igual serenidade os dias de sol e os de escuridão. Se, pelo contrário, nos agarrarmos àquilo que nos dá prazer, temendo a polaridade oposta, nunca seremos felizes, porque a insegurança espreitará mesmo quando estamos alegres, pelo receio de que a dor possa surgir.

A aceitação e exploração da variedade das experiências que enfrentamos, confere-nos um estado de realização mesmo sofrendo, enquanto que se recusarmos as experiências, optando pelo prazer imediato e pela fuga à dor incontornável, seremos infelizes, mesmo desfrutando aquilo que de momento nos apraz.

A dor é potenciada sempre que se oferece resistência, com sentimentos de revolta. A aceitação serena daquilo que não pode ser mudado, apazigua a mente, trazendo benefícios evidentes. Aliás, isso representa amor à vida que assim se manifesta, o que significa igual amor a nós próprios, condição básica para sermos felizes.

Somos aquilo que sentimos e a dor ou sofrimento – assim como os sentimentos de índole mais positiva -, correspondem a emoções que se inscrevem nos nossos seres e que nos conferem consciência, tendo por isso as dificuldades por que passamos, o mérito de nos alertar intimamente para aquilo que nos distancia da vida e das suas leis.

Se não nos antecipámos aos acontecimentos, coordenando as nossas actuações em conformidade com os ditames universais, a consciência da dor faz-nos entender aquilo que de outra forma não perceberíamos. É esta a função daquilo que à partida recusamos e que gostaríamos que não acontecesse, e que no fundo é sinal de algo incorrecto, tal como a doença decorre da violação de uma lei natural.

Percebamos, enfim, que todas as circunstâncias servem para a nossa evolução humana e que a vida essencial permanece incólume perante os nossos erros, porque Ela é aquilo que é. Somos nós os únicos prejudicados e se queremos fazer o caminho mais suave no regresso à casa que buscamos, se queremos evoluir sem muito sofrimento, procuremos respeitar aquilo que subjaz à dinâmica de tudo quanto se revela e existe.

Deixe o seu comentario!

Coloque seu comentário abaixo, ou trackback a partir de seu próprio site. Você também pode subscribe to these comments via RSS.

Pode usar estas tags:
<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>

Este é um weblog Gravatar-permitido. Para obter seu próprio - mundialmente reconhecido - avatar, por favor registe-se emGravatar.