Home » Editorial

A vida – A dor e o sofrimento

27 Agosto 2011 149.683 views Não Commentado

004.140x140004.140x140A dor e o sofrimento são partes intrínsecas da vida, assim como os sentimentos e emoções mais positivos, como a alegria e a felicidade.

Num mundo dual, onde as polaridades opostas definem a nossa realidade, a tristeza e a alegria devem integrar o quotidiano das nossas vidas. Não podemos esperar que haja apenas dias de sol, pois a chuva também é necessária. A sabedoria a cultivar será, portanto, a de acolhermos como inevitáveis estas oscilações naturais, se desejamos alinhar-nos com a vida, condição essencial para sermos felizes.

É verdade que o sofrimento e a dor parecem distantes do estado de felicidade a que aspiramos naturalmente, e que constitui a razão de ser de todos os nossos comportamentos e atitudes. Assim, pode parecer insensato acolher esses estados de espírito em pé de igualdade com aqueles que nos proporcionam felicidade num determinado momento.

No entanto, a construção da felicidade é uma tarefa contínua, que exige empenho e habilidade para ser gradualmente delineada. Embora a fuga àquilo que nos faz sofrer seja um imperativo moral — pois nascemos para ser felizes e não para o contrário —, é igualmente necessário que tenhamos coragem para aceitar aquilo que não pode ser mudado, como condição para estarmos em harmonia com a vida e com todas as suas contingências e leis.

Se a luz e as trevas coexistem, também teremos de enfrentar dificuldades e provações para enxergarmos a luz ao fundo do túnel. De nada vale desejarmos que as coisas sejam diferentes, pois essa é a lei da vida que nos reserva a almejada felicidade, quando já tivermos percorrido o caminho dos altos e baixos.

Assim, devemos aprender com aquilo que nos dói, para que o mal não se repita, na presunção de que os nossos sofrimentos, na sua origem, resultaram da violação das leis da vida. Em cada provação, devemos fazer a pergunta interior sobre a lição a aprender, de modo que as nossas ações futuras sejam mais acertadas.

Nós somos vida, e toda a ação que lhe seja contrária reverter-se-á contra nós, originando angústias, doenças, solidão e mal-estar no conjunto do mundo. É importante, então, buscarmos a ordem e a inteligência do universo, das quais somos agentes e partes, para que a vida deixe de conter as oscilações inerentes ao plano de existência em que nos encontramos. Para isso, é necessário dedicarmo-nos a um trabalho interior, de forma a descobrirmos as leis naturais que operam na vastidão do mundo, e assumirmos a condução do nosso viver quotidiano em consonância com essa harmonia absoluta. Até lá, não devemos furtar-nos àquilo que temos de viver para acertar o passo, aceitando amorosamente e com serenidade tanto os dias de sol como os de escuridão. Se, pelo contrário, nos agarrarmos apenas ao que nos dá prazer, temendo a polaridade oposta, nunca seremos verdadeiramente felizes, pois a insegurança espreitará mesmo quando estamos alegres, pelo receio de que a dor possa surgir.

A aceitação e a exploração da variedade das experiências que enfrentamos conferem-nos um estado de realização, mesmo em sofrimento. Por outro lado, se recusarmos as experiências, optando pelo prazer imediato e pela fuga à dor inevitável, seremos infelizes, mesmo desfrutando do que nos agrada no momento.

A dor é amplificada sempre que oferecemos resistência, acompanhada de sentimentos de revolta. A aceitação serena daquilo que não pode ser mudado apazigua a mente, trazendo benefícios evidentes. Isso representa amor à vida, que assim se manifesta, o que significa igual amor a nós próprios, condição básica para sermos felizes.

Somos aquilo que sentimos, e a dor ou sofrimento — assim como os sentimentos de índole mais positiva — correspondem a emoções que se inscrevem em nós e que nos conferem consciência. As dificuldades que enfrentamos têm o mérito de nos alertar para aquilo que nos distancia da vida e das suas leis.

Se não nos antecipamos aos acontecimentos, coordenando as nossas ações em conformidade com os ditames universais, a consciência da dor faz-nos entender aquilo que, de outra forma, não perceberíamos. Esta é a função daquilo que inicialmente recusamos e que gostaríamos que não acontecesse, sendo, no fundo, um sinal de algo incorreto, tal como a doença resulta da violação de uma lei natural.

Percebamos, enfim, que todas as circunstâncias servem para a nossa evolução humana e que a vida essencial permanece incólume perante os nossos erros, pois Ela é aquilo que é. Somos nós os únicos prejudicados, e se desejamos fazer o caminho mais suave no regresso à casa que buscamos, se queremos evoluir sem muito sofrimento, devemos respeitar aquilo que subjaz à dinâmica de tudo o que se revela e existe.

A aceitação das nossas experiências, sejam elas agradáveis ou dolorosas, é fundamental para o nosso crescimento. Cada desafio que enfrentamos traz consigo uma oportunidade de aprendizagem, uma chance de nos tornarmos mais resilientes e conscientes. Ao abraçarmos a dor como parte do nosso percurso, transformamos o sofrimento em sabedoria, permitindo que a nossa jornada se torne mais rica e significativa.

É importante lembrar que a dor não é um fim em si mesma, mas um meio de nos conectar mais profundamente com a nossa essência e com os outros. Quando partilhamos as nossas experiências de sofrimento, criamos laços de empatia e compreensão, que nos ajudam a sentir que não estamos sozinhos nas nossas lutas. Essa conexão humana é uma fonte poderosa de cura e transformação.

Além disso, ao reconhecermos a dor como uma parte inevitável da vida, podemos cultivar uma atitude de gratidão por cada experiência, mesmo as mais desafiadoras. A gratidão nos permite ver além do imediato, ajudando-nos a encontrar significado nas dificuldades e a valorizar os momentos de alegria. Assim, a vida torna-se um ciclo de aprendizagem contínua, onde cada emoção, seja ela positiva ou negativa, contribui para a nossa evolução.

Por fim, é essencial que nos lembremos de que a felicidade não é um estado permanente, mas sim uma série de momentos que se entrelaçam com a dor e o sofrimento. Ao aceitarmos essa realidade, libertamo-nos da pressão de buscar uma felicidade constante e, em vez disso, aprendemos a apreciar a beleza dos momentos efémeros de alegria que surgem ao longo do caminho.

A vida é, portanto, uma dança entre a luz e a sombra, entre a dor e a felicidade. Ao aceitarmos essa dualidade, tornamo-nos mais completos e autênticos, capazes de viver plenamente cada experiência que nos é oferecida. Que possamos, assim, abraçar a vida em toda a sua complexidade, aprendendo a dançar com as suas oscilações e a encontrar beleza mesmo nas tempestades.
(António Casteleiro)

www.antoniocasteleiro.com

” Aceito os ignorantes ! Não aceito os que ignoram a própria ignorância. ” (António Casteleiro)