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A globalização

6 Agosto 2011 169.614 views Não Commentado

004.140x140004.140x140A globalização é um fenómeno complexo que tem transformado a forma como nos relacionamos e percebemos o mundo. A facilidade e intensificação das redes de comunicação favorecem a identificação pessoal. O ser humano define-se através do confronto com o outro. O estreitamento de horizontes e o fechamento no ego e no grupo restrito impedem o desabrochar das potencialidades humanas e a construção individual. Para assumirmos a nossa verdadeira especificidade, mediante o exercício da autonomia individual, é essencial trocarmos experiências diversificadas, de forma a descobrirmos a contribuição única que temos a dar na construção do mundo em que vivemos.

À medida que a globalização se acentua nas sociedades atuais, observa-se um maior investimento na definição das realidades locais e regionais. A segurança alcançada por uma inserção mais conseguida na amplitude mundial permite uma realização mais individual, tanto ao nível das populações como das pessoas. É importante distinguir a globalização em si do sentido que lhe pode ser atribuído por líderes sociais e políticos, que muitas vezes a orientam conforme os seus interesses.

A liberdade que a expansão da globalização denota possibilita a liberdade de expressão, tanto individual como grupal. O alargamento da globalização origina um aprofundamento da realidade em todos os níveis de expressão, sendo ambos os fatores necessários a qualquer processo de crescimento.

O crescimento só é possível se se investir em ambas as direções da cruz do Ser: na linha horizontal, que permite o alargamento, e na linha vertical, que se relaciona com a ideia de aprofundamento. Ao tornar-se o mundo mais global e interativo, cada um dos seus elementos pode construir a sua própria realidade, pois lhe é facultada uma expansão de si, um maior alargamento. O pequeno está intrinsecamente ligado ao grande, e aquele só se define quando integrado no outro. Sem a consciência do grande, o pequeno não se reconhece, percebendo-se apenas quando se apercebe que ambos existem na ilusão das nossas mentes, confundindo-se numa só entidade – a Vida.

Quanto mais nos abrirmos para a amplitude de experiências que a vida comporta, mais poderemos evoluir, pois ativamos e concretizamos as nossas faculdades, atualizadas pelo conhecimento e pela liberdade que alcançámos. Esta postura originará um incremento da evolução geral, já que as iniciativas individuais e grupais se tornarão cada vez mais diversificadas e generalizadas, refletindo-se no conjunto coletivo.

A prevalência da estrutura sobre o indivíduo, que caracterizou as sociedades pré-industriais e que ainda se verifica em determinados contextos que resistem à mudança sociológica, obstaculizava a realização pessoal. Os papéis sociais e comportamentos eram impostos em função do interesse do grupo, da comunidade, a quem cada um se deveria sujeitar em nome da coesão do conjunto.

Nesses grupos e comunidades, as especificidades e diferenças não eram consideradas; apenas importava o núcleo integrador, que se procurava preservar por receio de perda, decorrente de uma limitação de contactos e de uma estreiteza de horizontes, cingidos apenas aos familiares, vizinhos próximos e habitantes de um mesmo povoado. A incapacidade de realizar e o imobilismo contribuíam para esta situação. O poder autocrático e a direção autoritária faziam prevalecer a realidade superior, em detrimento da considerada inferior, que era diminuída e anulada. A desigualdade social era a lógica em que tudo se baseava.

Nas sociedades modernas, a democracia política, tendo como pressuposto ideológico a noção de igualdade entre todos os cidadãos, origina o estabelecimento de parcerias, substituindo uma gestão exclusivamente orientada de cima para baixo. Isso permite e suscita a autonomia, inspirada no individualismo sociológico, que é apanágio da modernidade.

A auto-determinação é, portanto, promovida, originando a projeção do ser humano no mundo maior em que se insere e com o qual estabelece relações que enriquecem ambas as partes. Assim, tender-se-á cada vez mais para a realização pessoal, que advém da descoberta da verdade de cada um, descortinada na relação do indivíduo consigo próprio e com o mundo maior, que o ultrapassa e transcende, mas que subjaz à sua experiência pessoal.

(António Casteleiro)

www.antoniocasteleiro.com

” Aceito os ignorantes ! Não aceito os que ignoram a própria ignorância. ” (António Casteleiro)