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Amor – Constuir e Destruir !

10 Setembro 2011 Não Commentado

Antonio CasteleiroA união que desejamos que se realize no mundo, nada tem a ver com a intromissão em realidades alheias em nome da unidade que almejamos.

Muitas vezes, esta confusão leva a que, no âmbito das relações afectivas, haja uma tendência à apropriação do outro, pensando-se que isso é amor. Em seu nome, exigem-se determinados comportamentos, em função de expectativas criadas, que queremos ver realizadas para que o nosso vazio se preencha à custa do outro, esperando-se que este se paute em função daquilo que consideramos como condição para o relacionamento se mantenha.

Surge então o apego e a dependência, que não liberta nem aquele que julga amar nem o sujeito a quem esse sentimento se dirige.“Não posso viver sem ti”, expressão que inspira todo o tipo de romances e novelas, denota o quanto remetemos para o outro a responsabilidade do preenchimento das nossas vidas e felicidade. É de facto difícil, porque exige um trabalho sobre nós próprios, aceitarmos que a responsabilidade de sermos de uma ou outra maneira, de vivermos bem ou mal connosco próprios, compete-nos fundamentalmente.

Assacarmos aos que nos rodeiam a causa das nossas angústias e problemas, aliena-nos e evita o confronto com as dificuldades que temos a superar, que julgamos resultarem da forma como alguém se comporta para connosco. A interacção que se vai estabelecendo entre as pessoas, poderá facilitar ou dificultar a resolução dos problemas de cada um. Os outros contribuem, de facto, para uma mais fácil ou difícil consecução da felicidade pessoal procurada. No entanto, só nós poderemos gerir essas diferentes circunstâncias para que a construção interior se faça. As experiências com os demais são apenas instrumentos para a realização desse trabalho pessoal e solitário.

Nas famílias de modelo tradicional, esta noção do grupo como realidade que se impunha ao indivíduo, em nome de uma união familiar, impedia que cada um se evidenciasse de forma única, sobretudo se em contradição com o que o conjunto dele esperava e que considerava dever fazer-se. Então, as frustrações, a incapacidade de auto-realização eram a norma. Todos tinham de se comportar não só de acordo com os ditames familiares, mas também em consonância com regras rígidas de âmbito social e comunitário.

As sociedades modernas do mundo ocidental, ao introduzirem a noção de individualismo sociológico, inverteram esta tendência arcaica e passou a permitir-se, num espírito de liberdade, a expressão de cada pessoa, dentro dos parâmetros legais e institucionais, que facilitem o exercício dessa liberdade não só a alguns, mas a todos.

Julgamos, pois, que a união ou amor que se procura realizar no mundo e que constituirá o cerne de realização humana, nada terá a ver com este atropelo de personalidades, que se diluem no grupo ou comunidade, em nome da coesão dos mesmos, mas antes será a manifestação, em harmonia, porque em total respeito por cada um, das diversas realidades que, evidenciando as suas pecularidades, constroem uma realidade maior e mais rica.

Terá, assim, de ser permitido, num clima de liberdade – dentro de regras de âmbito colectivo que acautelem os direitos de todos os cidadãos -, o crescimento individual, que permita que o mundo seja a revelação de cada uma das particulares contribuições de cada ser humano.

É este o sentido que deveremos buscar nos relacionamentos a ter uns com os outros, nomeadamente no casamento, que antes de tudo deverá procurar a autonomia de cada um dos pares, para que assim se descubram como seres únicos e se possam então realizar individualmente. O amor, ou seja, o respeito por essa liberdade pessoal e o desejo e a acção em vista do bem-estar e crescimento do outro, facilitará essa busca de autonomia e construção pessoal.

Podemos perceber melhor esta perspectiva, se reflectirmos no fenómeno de destruição que se segue a um embate violento entre dois corpos ou realidades materiais. Não se trata aqui de união, mas antes alteração violenta do estado em que se encontrava um corpo ou manifestação física, pela intromissão de algo que não permitiu a livre circulação e existência dessa mesma entidade material.

De igual forma, se em nome da coesão relacional, assim procedemos nos contactos tidos com os outros, estaremos a impedir que a pretendida união se estabeleça, a qual decorre sempre da inter-relação de agentes livres e únicos em termos de expressão própria.

Então, poderá falar-se de amor, que é a nergia construtiva que estabelece a harmonia entre as partes.

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